|
04/07/2007 08:39
Trovas subterrâneas
Trovas subterrâneas*
Eu odeio mímicos e palhaços em geral. Para minha alegria, eles estão sumindo das ruas de Paris. Na primeira vez que estive aqui, a moda era marionetes no metrô. Agora a moda subterrânea é outra. São outras...
1-Sintetizador + carrinho de feira
A estranha engenhoca produz um som de bateria eletrônica. Sobre essa base, um clarinetista executa sucessos do cancioneiro mundial: "Besame mucho", "La Vie en Rose" e "Let it be". Já vi vários. Até mais de um num mesmo vagão.
2-Ciganos
Sempre acho que eles deveriam aproveitar a sua "ciganidade" para fazer uns números coloridos, tocar uma guitarra, uma coisa à la gipsy kings para contagiar as massas, mas não. Eles optaram por tocar no acordeon clássicos da música francesa que ninguém mais quer ouvir. O problema também é que eles só sabem uma música. Eles tocam essa única música mal e partem para passar o chapéu. Eu não dou esmola em euros para ninguém, especialmente para quem tem dentes de ouro. Désolée. E aí eles vão passando de vagão em vagão tocando a mesmíssima canção over and over again. Uma tortura.
3-Falsos italianos
Há uma espécie de máfia dos falsos italianos. Os caras entram no metrô com um violão, cantam: "Volare ôo" e passam um chapéu. Um amigo meu italiano resolveu interagir com o seu compatriota cantor. Surprise! O cara, na verdade, era argentino e não falava italiano.
Dias depois, numa outra linha, entra um outro cara supostamente italiano que foi igualmente desmascarado por velhinas italianas que iam para a Torre Eiffel. E fica a pergunta: por que mentir sobre a nacionalidade sem saber falar italiano? Outra pergunta: guitarristas italianos têm mais apelo popular?
Flash mob esmola
Primeiro eu vi um cara no Champs Elysés. Ele veio caminhando e parou de repente sem falar nada. Se ajoelhou no meio da calçada, não abriu a boca, colou o rosto no chão, esticou os braços, virou a palma da mão para cima e ficou esperando a esmola. Ficou lá imóvel durante horas. Agora virou moda. Já vi outros caras se espalhando pelas escadarias do metrô, na porta de restaurantes... Mulheres também. Até crianças. Todos segundo o mesmo estranho ritual. Tão andando e, do nada, fazem a performance. Como surgem essas modas?
P.s: E os músicos andinos? Por onde andam aqueles adoráveis e melancólicos bolivianos, peruanos e assemelhados com suas flautas tocando o repertório dos Beatles com um olhar lânguido dos andes? Eles sumiram. Vi outro dia dois exemplares em frente ao Centre Georges Pompidou, mas foram os primeiros em nove meses aqui. O que aconteceu com eles? Foram dizimados pelos ciganos?
*Homenagem ao poeta Ricardo Lisboa
enviada por pink
24/05/2007 10:06
Mania de política
Mania de política
Os franceses são incríveis. Nunca vi um povo tão apaixonado por discutir política. Já contei há posts atrás que é praticamente impossível um inocente flertizinho amoroso ou um papo de bar sem pelo menos uma boa hora de saliva gasta discutido a crise humanitária no Darfour, o aquecimento global e a administração Bush. Sem falar do Sarkozy e do futuro do Partido Socialista. E é claro, sendo brasileira, não escapo de ter que ter uma opinião formada sobre o Lula e a nova esquerda na América Latina. Teve um dia que achei que já tinha chegado o dia da minha defesa de tanto que tive que explicar a relação Lula-Morales e a história do gasoduto e o Chávez e o Fidel. Socorro.
E a discussão política me persegue em todos os cantos. Até ontem vendo a final da Champions' League num bar tive que falar sobre o Lula para desconhecidos. Eu juro que não sou eu que puxo o assunto.
É verdade que já estou até me afrancesando e vendo os programas de debate na tevê. Há no mínimo uns dois em cada canal. São mesas-redondas sobre filosofia, política, enfim, qualquer coisa que renda um debate até fui convidada para ser figurante. Para ser figurante é fácil. basta fazer uma cara de compenetrado e levantar a sobrancelha diante de uma intervenção supostamente inteligente.
O pior é que as pessoas realmente levam a sério suas crenças políticas. Não é só um marketing pessoal. Perdi uma promessa de amizade porque disse que me considerava uma social-democrata. O menino, de extrema-esquerda, me disse que "a social-democracia era um flerte com o neoliberalismo". E foi a primeira e última vez que conversei com o fulano.
Comecei a ficar preocupada. Percebi que ser sul-americana e não ser de extrema-esquerda parece, aos olhos gringos, tão paradoxal quanto um judeu defender o arianismo ou um negro ser a favor do apartheid na África do Sul.
Junto com uma amiga, tentamos encontrar uma alternativa política para não afastar futuras amizades na França. Pensei em falar que defendo um novo movimento político que não é de esquerda, nem de direita, nem de centro, mas do "alto". Palavras da minha amiga: "Ainda acho que isso é coisa da direita. Se vc disser isso, logo vão falar que vc é de direita, já que vc se acha do alto. Se fosse do baixo, seria de esquerda, a favor dos oprimidos."
Pensei em falar que eu sou de "fora". Mas de novo, "de fora" vai cair na coisa altermundialista associada com esquerda radical.
Sugestão da minha amiga: Diga que vc é circular. Assim não tem extremidades. Se bem que podem dizer que vc é do centro. "
Também não posso dizer que não sou nada, porque ser "alienado" acho que ainda é pior que defender o Front National.
Aceito sugestões.
Exemplos da politização francesa:
1-No cabeleireiro
Estou eu lá num cabeleireiro dos afro-coreanos que aliciam moças na saída do metrô. Breve explicação. Logo na saída do metrô, ficam uns caras abordando as moças e oferecendo manicure e escovas (minha palavra mágica) a preços competitivos. Um dia resolvi encarar o desafio. Lá chegando, a moça começa a fazer a minha escova e tal. Em dado momento, ela pára diante da tevê. Todo mundo no salão parou ao mesmo tempo: as manicures coreanas, as depiladoras russas, as cabeleireiras africanas. Pensei: "o que que esse povo tá olhando tão interessado?". Era a reprise do discurso do François Bayrou que falou, falou e não disse nada. Mas era o tal discurso em que ele deveria anunciar se iria apoiar o Sarkô ou a Segô no segundo turno. Logo após o discurso, todos começaram a discutir as entrelinhas do pronunciamento do Barrou. Me largaram lá com o cabelo metade molhado metade seco por uns bons 20 minutos.
2-No cabeleireiro 2
Minha grande alegria no cabeleireiro é ler uma revista de fofoca. É trash, é tosco, mas eu gosto. Pronto, falei. Me delicio com a história que a Sophie Marceau está namorando o Christopher Lambert (aliás o que ele tem feito, além de pintar o cabelo de acaju?) quando fui interpelada por Yveline, a minha escovista, que queria saber o que eu achava do pacto ecológico do Nicolas Hulot, um apresentador de tevê que defende causas ecológicas e luta contra o aquecimento global. E lá fui eu falar dos problemas do planeta quando só queria mesmo falar da franja da Halle Berry.
3-No metrô
Estou eu lendo o Libération, um clássico jornal da esquerda francesa. Um cara senta do meu lado e puxa uma conversa-cantada bizarra.
o cara: a mademoiselle é de esquerda?
eu: simpatizo com a social-democracia
o cara: vc consideraria tomar um café com alguém de direita?
Minha gente, que abordagem é essa?!
4-O mendigo engajado
O cara entra no metrô para pedir a sua tradicional esmola, mas é a França, o cara é francês e sempre haverá um discurso. Começa o cara:
"Estou aqui pedindo uma colaboração" (até aí, normal)
Ele continua:
"Atualmente estou sem teto. Há três dias não tomo banho e sei que exalo um odor nauseabundo" (já achei o vocabulário refinado demais)
"Eu sou uma vítima da mundialização" (apelido francês para a globalização)
"A mundialização me tornou um pedinte. O capitalismo é podre e me excluiu" (já comecei a achar que era uma pegadinha)
"Aceito moedas, um ticket restaurante, um bilhete de metrô ou um contrato de emprego com jornada de 35 horas".
enviada por pink
06/03/2007 10:56
De repente, 13
Pois é, aos 30 anos resolvi voltar a estudar. Animada com o doutorado em Geopolítica, animada de poder passar os meus dias tendo como única atividade a leitura das coisas que eu já lia nas minhas horas de lazer (tá, que eu lia no trabalho mesmo quando estava entediada). Estava radiante até que, logo ao receber as propostas dos seminários, tinha um workshop obrigatório de cartografia. Fiquei tensa. Mais tensa ainda quando, em outubro, me avisaram que eu deveria passar por uma avaliação para verificar as minhas habilidades (que habilidades?) cartográficas.
O exercício era relativamente simples: fazer uma mapa à mão relativo a algum aspecto da minha pesquisa. Fiquei tensa de novo. O problema é que na última vez que um fiz um mapa o Bill Clinton ainda era presidente, eu usava henna em pó no cabelo e ia para as festas usando uma calça Bali. Ou seja, faz muito muito muito tempo mesmo. Plutão ainda era planeta.
Muito bem, munida do meu espírito guerreiro, fiz o bendito mapa. Na volta das férias, em janeiro, recebo a nota pelo meu esforço: 10! O pequeno detalhe: 10 numa prova que valia 20. Junto com a nota, um bilhetinho explicativo que as pessoas seriam divididas em grupos para o curso intensivo de cartografia e que o professor me aconselhava a fazer aulas de apoio, já que não tinha uma formação em geografia. Jeito polido de dizer que eu sou tosca e ia precisar de um explicador. Nem na minha fase mais crítica, matemática na 7ª série, eu tive explicador.
O fato é que desde que esse curso de geografia começou, regredi alguns anos na minha vida. De repente, estou com 13 anos de novo. Até as espinhas voltaram. Num momento Peggy Sue, estou revivendo o pesadelo de ter que prova de desenho geométrico (meu pavor estudantil) sem a ajuda do Luiz Antonio e do Sadamtisu que sempre me deram aquela força nas provas de desenho.
Na véspera do começo do curso, recebo mais um aviso enfatizando que eu deveria levar rascunhos em papel vegetal dos mapas. Lá fui eu a uma papelaria comprar canetinha, lapiseira, papel vegetal, borracha e um lápis de desenho. Bom, eu já tenho a minha régua da Fulla, uma barbie de burka que é sucesso da Jordânia.
Noite de domingo e eu sentada na sala, vendo MTV e preparando o trabalho de casa. Recebo um telefonema de um amigo francês me convidando para ir com outros populares a um restaurante especializado em comida do Himalaia (o que quer que eles comam por lá).
-Não posso ir. Tô fazendo um trabalho de casa.
-Deixa de palhaçada, vamos jantar. Vai o Fabio, a Sophia...
-Eu tenho que fazer um mapa para a faculdade.
-Faz depois. O restautante é bom e barato. Vc faz isso rapidinho depois. Qual a dificuldade de fazer um mapa?
-Eu tirei 10 numa prova qur valia 20. Estou no grupo dos mais fracos e tenho um monitor que que ver os meus mapas antes de, talvez, me colocar num nível ainda mais baixo.
(Silêncio seguido de um som de gargalhada contida).
Ninguém leva fé na minha dificuldade em dominar esse bendito software de cartografia que não me obedece e que me odeia. É a revolta das máquinas.
Os meus poucos amigos foram se divertir e eu fiquei em casa fazendo um mapa.
Dia 2 do curso:
Minhas dificuldades continuam. O monitor é um carrasco.
-Seu mapa tá horrível, há vários traços parasitas (hã?!), sua vetorização (cuma?!) tá toda errada. Vc vai ter que refazer tudo e trazer amanhã sem falta.
Volto eu desanimada para casa e refaço pela milésima vez o contorno da América do Sul. Socorro!
Outros amigos ligam me convidando para ir num sarau de poesia.
-Não posso, tô de castigo fazendo um mapa.
Convite para dançar salsa.
-Não posso, tô de castigo fazendo um mapa.
Convite para ir ajudar uma amiga a comprar maquiagem.
-Não posso, tô de castigo fazendo um mapa.
Enfim, recusas sistemáticas a todos os convites ligados ao mundo de uma pessoa de 30 anos.
Há 15 dias minha vida é a de uma adolescente. Acordo, tomo meu achocolatado de pijama, faço o trabalho de casa, almoço, faço trabalho de casa, pausa para ver MTV, trabalho de casa, converso no MSN e no Skype e faço o bendito trabalho de casa. Pronto, estou eu com 13 anos de novo. Ouvindo Faith no More (viva o E mule!) e Bon Jovi, estudando para uma prova. O pior com medo de levar bomba na prova e ter que repetir o seminário de cartogtafia com o temido monitor Jéremy.
Au secours!
enviada por pink
11/02/2007 17:06
O horror, o horror
Neve, eu carregando um laptop nas costas no melhor estilo tartaruga ninja e ainda por cima de salto, porque não é porque eu sou estudante que vou ficar andando de tênis por aí o tempo todo. Vou pegar o metrô -adoro Paris, mas metrô na hora do rush é desanimador- e o vagão está lotado. Gente saindo pelo ladrão, mas agora sou adepta da atitude eu vou caber!. Nade de dar uma de mulherzinha. O negócio é tapar as narinas e correr para a galera.
Espremida entre um carrinho de bebê e um pastor alemão, nem acreditei na minha sorte. Na estação seguinte (Stade de France da linha 13), um popular desce e eu tenho a oportunidade de sentar. Milagre! Sento feliz e posso me dedicar a ler meu livrinho e pensar na vida. Mais algumas estações passam, o vagão começa a esvaziar um pouco. De costas, sinto um cheiro meio esquisito. Meio azedo, meio salgado. Desgusting! Mas, infelizmente, sentir cheiro ruim no metrô de Paris é freqüente, então nem me abalei para verificar quem estava exalando o terrível odor. E, visto que não havia outro lugar para sentar e que mesmo que eu ficasse em pé o cheiro não iria embora num vagão fechado, fiquei quieta no meu canto. As pessoas também estavam com um ar cool e não se importavam com o passageiro mal-cheiroso.
De repente, a moça muçulmana sentada à minha frente deu um pequeno grito horrorizado: Oh, non, cest pas vrai, non! (oh, não, não é verdade, não!). Ela estava com uma expressão de nojo e pavor olhando na direção do cara que estava sentado bem atrás de mim num dos banquinhos dobráveis do metrô. Foi nessa hora que eu me virei e vi a cena mais nojenta da minha vida. O popular em questão estava retirando piolhos da cabeça e .... COMENDO. Ahh! Fiquei paralisada. E acabei dando um minigrito em português mesmo: ai, credo!. Rapidinho, peguei as minhas coisas e corri para a porta para descer na próxima estação. Era só o que me faltava: sair do Brasil para pegar piolho em Paris. Francamente. Assim que o metrô parou eu desci correndo na velocidade de luz, mas, para meu espanto, o piolhento veio atrás de mim (eu tenho um ímã genético pata mendigos e afins). Eu apressei o meu passo no meio das pessoas que desciam também e me lancei num outro vagão. Mesmo com o salto e com a mochila pesadíssima nas costas, tive agilidade suficiente para me desvencilhar da perseguição portador de parasitas (piolho é um parasita?). Enfim, entro no vagão e o come-piolho fica acenando para mim da plataforma. Eu, hein.
Piolho- parte II
Desesperada com a possibilidade de ter pegado pilho (eu acreditava que o piolho voava ou pulava até 100 m, graças ao disque piolho da Fiocruz, e do site, descobri que piolho não voa nem pula, mas é carregado pelo vento), fui para uma farmácia. Só pela menção da palavra piolho o balconista, que parecia com aquele lourinho do Queer Eye for a Straight Guy, fez uma cara de nojo e desprezo. Expliquei toda a situação, disse inclusive que estava de chapéu e ele disse que era para eu ficar tranqüila. Tranqüila, my ass., chegando em casa, minha primeira providência foi fazer um preparado de vinagre, daqueles das antigas (sim, eu tive piolho na infância) e fiquei com a pajelança na cabeça. Francamente.
enviada por pink
09/12/2006 14:32
Isso é Paris...
-A maioria das moças não vai comprar nem uma baguete sem rimel e sombra
-Os parisienses são super metrossexuais e a barba, aprendi, é o novo acessorio masculino para o inverno 2006/2007
_E preciso ter uma franja
-As melhores botas estão à venda aqui
-Existe no mercado um desodorante que promete durar 72 horas (por que alguém precisaria de um desodorante que dura 3 dias?!! Para reflexão)
-A escova custa 30 euros e uma depilação estilo Brazilian wax (aqui se chama maillot brésilien) também custa 30 euros. Ou seja, é preciso ter a certeza absoluta de ser pedida em casamento ou de ser condecorada pelo Jacques Chirac para fazer um investimento dessa natureza
-As pessoas namoram. Não foi difundido o conceito de ficar
-O processo de sedução envolve muitas xicaras de café e muitos debates sobre a globalização, o aquecimento global, a fome na Africa, as guerras, a importância do MST... enfim, é preciso ter opinião formada sobre tudo para conseguir um passaporte para um segundo date
-Uma vez no segundo date, a unica garantia é de mais café e mais debates que darão a possibilidade de um terceiro date e assim sucessivamente
-Todo mundo no metrô tem um iPod
-Todo mundo no metrô lê
-Sempre um gaiato te pergunta: "Vc é de qual origem?" Essa é uma estratégia de abordagem supercomum e os franceses entre si também sempre fazem essa pergunta
-Uma vez descoberta a origem brasileira, é preciso ter uma opinião formada sobre o Lula
enviada por pink
01/12/2006 15:02
Voulez-vous coucher avec moi ce soir?*
Depois de uma temporada de cinco anos em São Paulo, fiz as minhas malas e estou morando em Paris em busca de uma vida glamour, misteriosa e sensual embora com fortes restrições orçamentarias.
Problema 1: onde morar
A maioria dos parisienses, especialmente os estudantes, moram em apartamentos minusculos. O meu, é claro, não é exceção. Moro num caixotinho de 15 m2, 5 andar sem elevador, mas tem banheiro proprio, o que é, acreditem, um privilégio na cidade. Fui ver um apartamento e travei o seguinte dialogo com o propietario que usava uma boina e estava com uma baguete na mão. O anunciono jornal so falava da vista do apartamento, deveria ter suspeitado. A vista era de fato incrivel: a torre eiffel, os telhadinhos, bem perto de lojas chiques, madames de casaco de pele e cachorrinhos, mas...
eu: ué, não tem chuveiro?
o proprietatio: não e não ha possibilidade de chuveiro no prédio
eu: ué, como eu vou tomar banho?
ele: na faculdade, no trabalho...
eu: désolée, c'est pas possible. Eu preciso de um chuveiro em casa.
ele: é tão importante assim ter um chuveiro em casa?
eu nem me dei ao trabalho de responder.
A atitude desse monsieur explica bem boa parte dos cheiros estranhos recorrentes no Metrô de Paris.
*Tenho muita vontade de falar essa frase aleatoriamente para um desconhecido e gargalhar
enviada por pink
20/06/2006 19:49
Do PCC ...
Numa segunda no qual a minha única preocupação era fazer ou não as tais mechas mel no seu cabelo para valorizar o rosto, membros do PCC transformaram São Paulo em um caos. Eu, uma repórter realmente burguesa que gosta de ar condicionado e cadeira, do alto da minha bota e casaco de camurça, fui escalada para ir para a rua investigar umas ameaças de bomba no metrô e ver a reação de comerciantes e populares na avenida Paulista. Já no trajeto, o motorista do jornal resolveu dar uma de esperto para cima de mim.
Ele: A cidade tá muito perigosa hoje. Eu não vou ficar rodando com você não. Você desce aí e se vira. Qualquer coisa, chama um táxi. Eu tô com medo.
Eu: E eu tô de salto. O senhor vai ficar sim, porque eu não vou suar a minha escova andando a pé na Paulista.
O meu argumento foi tão surreal que o motorista nem falou mais nada. Bati perna a valer e fiz a matéria. Na volta para a redação...
... a Cannes
... recebo um convite para uma superfesta numa supermansão em Cannes bem na semana do festival em meio a celebridades do cinema, modelos e de boa parte do jet set internacional. O convite parte de uma empresa de cachaça (eu nem bebo, mas isso não vem ao caso). Primeiro pensamento: U-hu! Segundo pensamento : xiiiiih!
Veja bem, vou estar numa festa onde todas as mulheres têm 20 kg a menos e 30 cm a mais. Não bastasse esse estresse, está escrito no convite que o dress code é smart casual.
What the hell is smart casual? Olho no google as opões de vestimenta:
-calça capri (É ruim, hein, que numa festa cheia de modelos eu vou me enfiar numa calça clara, capri para ficar com o maior quadril da Côte DAzur)
-botas (já está primavera em Cannes, não vai rolar)
-saltos médios ou baixos (Eu já serei a mais baixa num raio de quilômetros. Não posso ir de salto baixo, mas também não posso ir de Hebe. Socorro!)
-vestidos descolados (tenho vestidos, mas serão eles descolados num lugar em que vai estar todo mundo de Armani, Roberto Cavalli?)
Outro drama: que cabelo combina com o estilo Smart Casual? Faço uma escova? Deixo ao natural e faço o estilo étnico-chic-tropical para tentar criar o meu nicho pessoal?
E se eu fizer escova e chover (a festa é ao ar livre num jardim ca casa do Pierre Cardin)?
E se eu deixar o meu cabelo crespo e tiver uma superumidade no local e o meu cabelo virar uma palha elétrica durante a festa?
Se eu usar um lenço num estilo Grace Kelly vão achar que eu sou chique ou que estou escondendo uma careca ou um distúrbio bizarro no couro cabeludo?
Será que é o caso de comprar um rabo de cavalo-aplique-100% natural por R$ 500 na rua Augusta?
Socorro! Não tenho roupa para ir, não tenho cabelo para ir. Vou chorar. Tô chorando.
Sarah Jessica Parker help me!
enviada por pink
11/05/2006 17:15
Misteriosa e musical
Passei a minha adolescência inteira chorando com temas romântico-pop-bregas tipo A-Ha, Bon Jovi, Roxette e outras coisas mais barra-pesada do brega estilo Air Supply. Enfim, essa cultura musical me levou a acreditar que é impossível viver um amor sem uma trilha de amor anexada.
Musicalmente falando, o meu tema de amor, quer dizer, o que eu achava que eu inspiraria em terceiros era uma coisa tipo bossa nova (Só tinha de ser com você), temas de filme (Cruising), talvez alguma coisa de Beatles ou de Chico Buarque. Também podia ser uma coisa mais clássica tipo The Platters. Pelo menos era essa a minha auto-imagem musical até que as minhas convicções foram abaladas pelo diálogo abaixo.
eu: Que tema de amor, musical, vc acha que eu sou?
ele: Como assim?
eu: Uma música de amor que tenha a ver comigo
ele: Não sei.
eu: Não tem nenhuma música que te faça lembrar de mim?
ele: Ah, tem, claro. Sonho de Ícaro...
eu: do Biafra?!!!!!!!!
ele: É. Ué, qual o problema? Vc não gosta tanto do Biafra? Não vive cantando Sonho de Ícaro por aí*?
eu: mas isso não é tema de amor.
ele: [silêncio]
Conclusão: além de não ser misteriosa e sensual, eu sou o Biafra.
P.S: Espontaneamente, chegou um amigo para mim com a seguinte fala hoje de manhã.
ele: Pô, escutei uma música no rádio, me lembrei na hora de vc. Vou cantar, vê se vc conhece? Se ela dança eu danço/
Se ela dança eu danço/Se ela dança eu danço/Falei com Dj
eu: Mc Leozinho?
ele: Sabia que tu conhecia. É a sua cara.
Resumindo: Eu sou o Biafra e a faixa 1 das preferidas do DJ Marlboro.
*Sim, eu já cantei Sonho de Ícaro num karaokê diante de populares.
enviada por pink
31/03/2006 16:56
Moi au Moulin Rouge
Não vou explicar aqui como eu recebi uma cortesia para conhecer o "cabaré mais famoso do mundo", mas eu fui ao "verdadeiro e único Moulin Rouge", em Paris, de graça. E daí? Pois é. Ok, não foi o convite top de linha, mas eu tinha direito a uma taça de champagne e ao espetáculo. O cabaré já inspirou telas de pintores famosos e teve até filme com a Nicole Kidman, mas o "verdadeiro e único Moulin Rouge" não tem nada de glamour.
O teatro em si é uma espécie de Teatro Rival piorado. Escuro com uma cara meio de inferninho cheio de japoneses e velhos americanos de bochecha vermelha. O espetáculo... bem... é um cruzamento do Plataforma 1 com Las Vegas. Umas moças realmente magras (me disseram que a altura mínima para entrar para o corpo de baile é 1,75m)e dançando de top less e fio dental com calcinha asa delta (nem acreditei que alguém ainda use isso). Muitas penas, uns números de jazz bem pobres com as moças com os braços sempre para cima (acho que tem algo a ver com manter os seios sempre empinados. Pelo que vi, nenhuma moça tinha silicone)e coreografias variadas e temáticas. Tinha russas, ciganas, rocabilly e uma coisa que eu não consegui definir, mas eram uns figurinos rasgados estilo Mad Max. Os moços dançarinos eram os mais performáticos do showbizz europeu. O de mais destaque (namorado do produtor ou filho do coreógrafo?) conseguia ter um peito maior que o das moças. Enfim, estava eu lá vendo vários números musicais toscos e pensando (que bom que não paguei 97 euros), quando apareceram em cenas a bizarra combinação de moças com o peitinho de fora conduzindo minipôneis (!!!) no palco. Olhei para o lado, vê se alguém achava que estava presenciando um absurdo estético. Mas não tive nenhum feedback. Todos pareciam genuinamente satisfeitos com o show.
Eu é que sou chata ou os produtores do Moulin Rouge é que são sem noção?
enviada por pink
15/02/2006 11:14
Não é você, sou eu
No meu tempo, era muito mais fácil levar um fora. Só havia duas opções. 1) Eu estou gostando de outra menina ou 2) Não gosto mais de você. Se o cara fosse extremamente sofisticado, havia a terceira opção, que virou um clássico: Eu estou muito confuso. O problema não é você, sou eu. Aí, colocava-se um disco do A-Ha, chorava-se um pouco e estava tudo resolvido. Agora, não. Agora é tudo tão complicado que eu já fiquei até em dúvida: Levei um fora ou não? E nem adianta eu perguntar Você está me dando um fora?, porque o repertório contemporâneo para dar um fora é tão complexo que, ao final de uma hora de conversa, você corre o risco de sair com a impressão que não levou um fora, mas que recebeu uma proposta de casamento. Logo, nesse mundo em que as palavras falham, o único jeito é confiar no espírito do toco. Explico. Quando se está para levar um fora, há uma voz que vem de dentro _ou de fora, sei lá_ que diz na hora exata em que vc vai ser chutada que é o fim. Tenho uma amiga que afirma que é mais que uma voz, é quase uma presença física que surge nas situações mais inusitadas.
1)Chove chuva
O menino passa a noite inteira na casa da moça, muito romance, muita alegria após a primeira noite juntos depois de uma série de encontros e altas expectativas. No dia seguinte, cai uma chuva torrencial, uma tempestade daquelas de alagar avenidas, derrubar barracos etc. Diante no cenário catastrófico, a menina gentilmente oferece um guarda-chuva para o menino não chegar molhado e de branco _ele era médico_no emprego. Ah, não. Não precisa não. Não tem problema pegar chuva não, diz o fulano com um ar tenso. Nessa hora, ela sentiu o espírito do toco: Ih, esse aí não volta mais. Mas ela achou que era apenas um pensamento tolo. Ela é legal, inteligente, jeitosinha... Por que ele iria sumir? Mas... dito e feito. O menino desapareceu. Nunca mais ligou, desapareceu de todos os lugares que eles freqüentavam. Sumiu por completo sem deixar rastros. Ficou a dúvida: será que o cara caiu num bueiro? Jamais saberemos.
2)CSI
Numa noite animada, moça fã de CSI puxa conversa com moço que está com uma camiseta do seriado em plena balada. Conversa vai, conversa vem, muitos risos e segue-se uma seqüência de encontros. A agenda básica: cinema, janta, almoço, dança...No meu tempo, dava para dizer até que era um namoro, mas hoje a expressão caiu em desuso. Enfim, logo no começo do namorito, que durou uns cinco meses, o moço revela que gostaria muito de adquirir uma caneca promocional de uma grande operadora de telefonia móvel. A moça, bem-relacionada no setor de telefonia, fica de descolar o mimo para o rapaz. Arma toda uma empreitada para arrumar o souvenir que já estava fora de catálogo. Mesmo depois de alguns meses de relacionamento, o tema da caneca continuava recorrente, mas a moça achou apenas que ele era muito fã do filme que era tema da caneca. Um belo dia, depois de 5 meses de encontros e afins, a menina consegue descolar a tal caneca que saiu da coleção pessoal do diretor da operadora de telefonia. Muito animado, o moço vai pegar o seu tão sonhado brinde na casa da menina. Uma noite de romacinho como todas as demais anteriores. Nada de especial. de manhã, o menino parte apressado sob a alegação de ter uma reunião no trabalho. Dá um beijo rápido, se despede e segue o seu caminho. Já na portaria, ele se lembra da caneca. Pega o elevador, bate à porta da moça. Ela abre cheia de esperança que fosse acontecer um segundo turno, mas ele só diz: Esqueci a caneca. Ela ficou um pouco intrigada. Ué, por que ele que estava tão atrasado voltou só para pegar a caneca? Não podia ter vindo hoje à noite? Pois é, o que o espírito do toco tentou dizer foi que ele não poderia voltar mais tarde naquele dia à sua casa, porque, simplesmente, ele jamais iria dar as caras de novo. Ele, sua camiseta do CSI e a sua recém-conquistada caneca do Star Wars sumiram para sempre no espaço sideral.
Seus problemas acabaram:
Por causa dessas e outras, eu já pensei em ter uma placa de bolso para situações desse tipo. Ao sentir o espírito do toco, na dúvida, tira-se a placa da bolsa e mostra-se as opções. Uma vermelha com os dizeres: Não se iluda, você está levando um fora. Eu não vou mais aparecer mais. Nunca mais. Uma verde: Tá tudo bem, passo aqui hoje às 22:00 (tem que ter horário exato porque mais tarde, muitas vezes, pode ser igual a nunca mais nesta encarnação) para a gente jantar. A única coisa que o menino teria que fazer é escolher a placa. Nada de conversas confusas, nada de sumiços inexplicáveis. Só apontar para a placa. O mesmo, é claro, valeria para quando meninas quisessem dar um fora definitivo em algum menino.
enviada por pink
08/02/2006 12:10
Como nascem as cantadas
Um dia andando pela rua Augusta* um popular me disse: Parabéns! com um olhar de aprovação. Não era meu aniversário nem nada. Na hora não entendi direito, depois percebi que era uma espécie de cantada. Semanas mais tarde, caminhando com uma amiga pela mesma rua Augusta um outro popular não apenas falou parabéns como também nos aplaudiu. Pensei, a princípio, que era uma cantada restrita ao perímetro da rua Augusta. Qual foi a minha surpresa quando uma amiga de outro Estado me falou que um cara também falou parabéns para ela. Fiquei intrigada. Como nascem as cantadas? Será que há uma espécie de entidade secreta masculina, estilo maçonaria, que se reúne periodicamente para lançar novas cantadas nas ruas? Será que eles divulgam as cantadas que têm mais aceitação popular? Aceitação entre os homens, claro. Será que há uma publicação mensal tipo Guia da Cantada?
O que é pior: uma cantada manjada ruim ou cantada própria que é um pouco o mesmo efeito quando um calouro resolve cantar uma música de sua própria autoria?
Gancho econômico
Lá estava eu dançando alegremente numa pista de dança qualquer. Chega um mocinho (19 anos no máximo) tentando engatar uma conversa
Ele: E aí, vc estuda onde (começou mal, pensei. Como assim onde eu estudo, meu filho?)
Eu: Já me formei, disse secamente (também não ia gratuitamente entregar a minha antigüidade)
Ele: Em quê?
Eu: Jornalismo (tudo bem, na verdade não me formei em jornalismo, mas até explicar toda a minha trajetória até virar jornalista...)
Ele: Tá fazendo estágio?
Eu: Trabalho num jornal
Ele: Que área?
Eu: Economia
(pequena pausa para a elaboração da abordagem definitiva, suponho)
Ele: Então em explica o que é PIB e me dá um beijo?
Sambista:
Na pista, mais um approach infeliz.
Ele: Nesse samba-rock tá faltando um pandeiro, né?
Moça: ãh?
Ele: É um pandeiro (e faz gesto de um air pandeiro)
Moça. ah, é. Também falta uma cuíca, né. Sei lá...
Ele: Vamos lá fora para eu te mostrar um pandeiro
Moça: O quê?!!! (misto de incredulidade e certa indignação)
Ele: É, tá cheio de pandeiro lá fora. Não tá acreditando. Vamos lá fora ver. Eu te mostro
A moça, minha amiga, coitada, ri amarelo e sai de fininho e deixa o moço na pista.
Bento Carneiro
Casal dança forró animadamente. Conversa vai, conversa bem, passinhos rolam. De repente, o moço revela: Eu sou médico, sabia. Aí, pega no braço da sua parceira de dança e declara: Você tem ótimas veias. Assustada, minha amiga aproveitou uma deixa qualquer e se mandou. Medo!
Sem noção
Eu estava bem quieta no meu canto no Vegas, juro, esperando minhas amigas voltarem do bar. Subitamente, surge um sujeito.
Ele: E aí? (acho que 80% das conversas começam com e, aí?
Eu:Tubo nem.
Ele: Você é mulata, né? Eu sou negro. Que tal a gente fazer um movimento black power essa noite?
*rua eclética tem: lojas caras, bingos, boates, casas de tolerância, botecos, inferninhos, churrascarias, cinemas, shopping etc
enviada por pink
20/12/2005 10:27
Sem salto, sem glamour
Eu tenho 1,60, mas me considero com 1,65 porque dificilmente eu ando sem salto. Mas ultimamente, tal qual uma idosa, comecei a sentir fortes dores no joelho. O médico recomendou que eu não usasse salto ou pelo menos diminuísse a freqüência do uso de sapatos não-confortáveis. Ele não se convenceu com a minha argumentação que o natural para mim é o salto. Enfim, no sábado, com as minhas amiguinhas, decidi ir ao Vegas de onde sabidamente só saio depois de dançar até cair. Me montando para o evento, lembrei que tinha que ir sem salto. A contragosto, coloquei um par de tênis supostamente fashion e fui. Lá chegando, sofri o primeiro revés da noite (culpa da falta de salto tenho certeza). A tal hostess amiga que coloca a gente prá dentro de vip não estava e tivemos que morrer em R$ 25. Uma vez lá dentro, me deparei com uma top model brasileira de renome internacional que, além da sua altura monumental, ainda estava de salto altíssimo. Só para me humilhar. Perto dela, e ainda por cima sem salto, eu me senti como um desses bichinhos mascotes de jogos olímpicos, ou bichinhos fofinhos do Animal Planet ou, simplesmente, um chaveiro. Sem salto e atrás da giganta ninguém me enxergou. Fiquei me descabelando horas atrás do balcão por uma bebida que, depois de milênios, chegou com gelo mesmo eu tendo insistido que queria sem gelo (sim, sou chata). Tudo porque não tinha altura para me destacar no meio de braços no balcão. Tenho certeza. Depois, já na pista, o menino mais chato do mundo tentou conversar comigo. O mais chato e também o mais baixo. Se eu estivesse de salto, ele não teria alcançado a altura da minha orelha e, conseqüentemente, não teria ousado se aproximar. O pior: o chão do banheiro estava todo molhado. De salto, dava para encarar, sem salto, correndo o risco de encostar a barra da calça naquele chão, fiquei com nojo e desisti da empreitada e passei a noite sem ingerir mais líquidos para não aumentar a minha vontade de ir ao banheiro.
Na volta para casa, exausta da minha vida ao rés do chão, segui a pé pela rua Augusta em meio ao seu contingente habitual de travestis e prostitutas. Sem salto, não ouvi nenhuma piada de mau gosto dos populares. Foi a primeira_ e a única_ vantagem do meu look pseudoesportivo em toda a noite.
enviada por pink
15/12/2005 18:52
Espírito natalino x amigo oculto
O entregador de dvds que me odeia (outra hora eu explico o porquê) chegou de manhã sorrindo pela primeira vez em um ano de relacionamento. Fiquei até comovida. Só depois eu entendi porque ele estava tão afável: junto com o dvd veio o famigerado envelopinho da caixinha do Natal. Do nada, na calada da noite, também surgiu um aviso do livro de ouro no meu prédio e no salão de beleza e na firma. Socorro, até o carteiro fez um pedido de caixinha com rimas. Enfim, há todo um mundo de pessoas tentando me extorquir R$ 10zinho nesse final de ano. Mesmo contrariada, eu sempre dou e me acho uma otária, mas tenho medo de ser vítima da revolta dos prestadores de serviço.
Mas, pior que as caixinhas, é a onda de amigos ocultos. Eu não consigo dizer não. Eu gosto da brincadeira, me empolgo, mas tenho uma carga genética negativa nessa área. Minha mãe, que gosta de música clássica, ganhou um disco do Agepê nos idos nos anos 80. Ela também já ganhou uma peruca, uma camisa GG (ela tem 1,55) , um conjunto de anões de jardim em miniatura para enfeitar a sala de estar (!!!!), uma figa de madeira em forma de cocar indígena. Depois disso, ela desisitiu. O meu pai já ganhou uma barraca de camping enferrujada, um relógio em forma de sol e um disco do Emílio Santiago que ele não havia pedido com uma dedicatória de feliz aniversário para outra pessoa. Depois disso, ele também desistiu. Eu também tenho meu repertório de histórias tristes, mas não desisti e vou participar de mais uma presepada neste ano. A conferir.
Meus piores momentos:
Com oito anos, participei de um amigo oculto no balé. Dei uma bolsa da cribb dancing (loja de marca) e ganhei um boneco de bola de gude em formato de palhaço. Cheguei em casa e chorei.
Com onze anos, participei de um amigo oculto no colégio. Pedi um par de brincos e ganhei só o dinheiro (o valor mínimo do presente) que o meu amigo (??) oculto tirou todo amassado do bolso de trás da calça na frente de todas as outras crianças que riram da minha cara. Cheguei em casa e chorei.
Com doze anos, participei de um amigo oculto no carreto que levava as crianças para a escola. Pedi um perfume Tati do Boticário e ganhei uma colônia de Alfazema (é aquela mesma de vó). Cheguei em casa e chorei.
No mesmo ano, no colégio, pedi um disco do Oingo Boingo, meu amigo oculto foi tão oculto que jamais apareceu e acabei ganhando um disco do Funk Brasil que seria o presente dele. Tudo bem que hoje é uma relíquia, mas, na ocasião, cheguei em casa e chorei.
E não é só isso. Também já ganhei em amigos ocultos: uma boneca cuja a maquiagem descolou no primeiro minuto e ela ficou desfigurada na frente das outras crianças que riram da minha cara, um brinco de plástico vermelho em forma de lápis, uma calcinha tipo fio-dental (eu tinha 9 anos. Coisa de pedófilo?)), um despertador que só funcionou um dia, um shampoo paraguiao de placenta de tartaruga (tartaruga tem placenta?)
A pergunta é: por que eu insisto?
enviada por pink
29/11/2005 18:47
First date from hell
É uma verdade universal. Primeiros encontros são, em geral, uma grande roubada. Uma tensão terrível, todos tentam dar o melhor de si, mas num ambiente tenso e às vezes até hostil, poucos têm a rara desenvoltura para se dar bem. Por isso, desenvolvi a teoria que melhor seria que nesses eventos todos tivessem um cd-rom/dvd de apresentação. As pessoas chegariam, se cumprimentariam e trocariam os dvds. Longe do estresse, com um menu interativo, daria para cada um conhecer o outro no conforto do seu lar com toda a privacidade. No menu, depoimentos dos amigos, umas tomadas da casa, uma espécie de pseudodocumentário: 24 horas na vida de fulano (a) e um vídeo clipe opcional no fim do dvd. Com essa ferramenta do mundo moderno, vejam só, todos os nossos problemas estariam resolvidos. Antes de jantar num restaurante francês com um quase desconhecido, por exemplo, já daria para saber de antemão que o cara acha que francês é língua de viado. Com o dvd, todo o sofrimento de uma noite interninável seria evitado. Com o DVD preventivo, também se evitariam as seguintes histórias:
1-Brazilian Psycho
Um ainda-sem-intimidade-casal decide sair para jantar para se conhecer melhor num fino restaurante em São Paulo. Tomam drinques coloridos, vinhos, antepastos gostosinhos e a conversa até flui com certa naturalidade. Na hora da escolha dos pratos, o menino é educado, não faz cara feia porque ela é indecisa. Tudo vai bem. Chegam os pratos. Para ela, uma massinha. Para ele, uma carninha. Aí ela percebe o lado psycho do menino. Ela começa a cortar a carne em pedacinhos pequenos e fica medindo no prato para ver se eles estão do mesmo tamanho. Não satisfeito, ele pede a opinião dela também para conferir a simetria do corte. Depois ele estendeu o macabro ritual para os demais legumes do prato. A menina começa a ficar tensa achando que o cara é um superpsycho. Como não consegue picar os pedaços do mesmo tamanho, o menino começa a ficar nervoso. Depois deu um salto mortal de uma cadeira para a outra ao lado dela e tentou passar a mão no peito da menina no meio do restaurante. A menina levou um supersusto. Constrangida, deu uma desculpa qualquer, pegou um táxi e foi para casa. Fala sério!
2- Na aba
Menina conhece um menino no Salão do Automóvel. Conversa vai, conversa vem, marcaram um chope na Lagoa. Ótimo, ela pensou. Pelo menos se ele não tiver nada para falar a gente fala de carro. Detalhe: o menino não tinha carro próprio apesar de gostar de automóveis. Combinaram então que ela passaria na casa dele para dar um providencial carona. Chegando lá, o menino já estava na porta, fez um ar de admiração para o carro da menina e fez várias perguntas técnicas sobre o possante. Ela já começou a se irritar. O menino realmente só sabia falar de carros. Mas o pior estava por vir. Ao passarem por um ponto de ônibus repleto de populares, o menino abaixou a janela, colocou a cabeça para fora e começou a xingar os transeuntes que esperavam a condução. Aí seus pobres. Tão a pé, hein. Pobreza é f.... Tô de carro, hein. Preocupada em ser atacada por populares hostis, a menina se viu obrigada a ter que acelerar. Depois desse mico, obviamente o clima esfriou total e ela jamais viu o cara de novo.
3-Hã?!!
Menino e menina saem pela noite para uma baladinha romântica. Tradução: pouca conversa e muito beijo. No fim, o menino mostrando todo os eu cavalheirismo deixou a moça na porta de casa, abriu a porta do carro e não ficou insistindo de forma irracional para subir. Encantada, a menina suspira e diz: Ai, vc é um changeman! O menino: O que, não entendi? Ela insistiu: Vc é muito educado. Um changeman mesmo. Como pessoa versada em artes marciais, afinal ele era um changeman, ele deu um golpe do desaparecimento e sumiu.
enviada por pink
28/11/2005 19:37
TV a gato
Ontem eu e minhas amigas conversávamos sobre as vantagens _ou não_ de se piratear um sinal de tv a cabo. Um amigo meu arrumou um porteiro jeitoso que lhe arrumou um supergato com vários canais top e por um custo de apenas R$ 50 de instalação. Com um outro amigo, foi o próprio cara da tv a cabo que se ofereceu para instalar um ponto adicional e fazer um upgrade do pacote básico do meu amigo, no sapatinho, é claro, por apenas cenzinho na mão. Nada de cheque, afinal ladrão que rouba ladrão... Meu amigo só não aceitou o pacote porque não tinha dinheiro vivo.
Eu queria muito uma assinatura. Uma moça solteira que mora sozinha não pode viver sem tv a cabo. É o fim dos tempos. Mas descobri que não existe mais o pacote que eu assinava. Ou é um master mega plus caro ou um super rastaquera e também caro. E aí, o que fazer? Eu tenho pavor de fazer gato, essas coisas, porque tenho certeza que seria desmascarada, presa. Viveria em pânico toda vez que ligasse a tv. Socorro! Tenho certeza que na hora que eu ligasse a tv pela primeira vez iria aparecer uns agentes da polícia federal. Para viver assim, nesse estresse, prefiro passar a vida ver Superpop e afins. Ou pior: Fantástico, o show da vida que foi talhado para humilhar quem decide ficar domingo à noite sozinho em casa. Bom, lá estava eu ontem conformada de ver as dicas de reprodução humana do Dr. Dráusio Varella quando um milagre aconteceu. Trocando freneticamente de canais _mesa-redonda de futebol, almofadinha paulista que entrevista supostas celebridades, programas de auditório z ..._ apertei algum botão mágico do controle _não faço a menor idéia qual_ que me abriu as portas para um sinal pirata, suponho. Todos os meus canais preferidos estavam lá: fofoca internacional, filmes, documentário .... Fiquei tão animada que fui dormir altas horas da madrugada maravilhada com a minha própria sorte. Liguei para todas as minhas amigas que têm tv a cabo, recomendei programas. Foi tão bom. Aí eu vi como sinto falta de uma tv a cabo. Acordei hoje decidida a fazer uma assinatura já. Mas aí, de manhã, o sinal ainda estava lá (com a imagem meio ruim, é claro), tava tudo funcionando e eu acabei adiando a assinatura oficial. Vou aproveitar a minha alegria _de pobre_ enquanto durar.
enviada por pink
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|